Angelo Felgueiras - escalar por uma causa

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Missão Cumprida - Diário do Angelo

Dia 13 de Maio, saímos para o C2 pelas 03:30. O objectivo é atravessar a zona do Icefall ainda de noite quando é frio e mais seguro.  A tradicional oração junto ao altar da Puja. Os sherpas rezam e eu partilho pensamentos positivos. As chamas dão um cheiro bom. Até começarmos a andar o frio é muito. Chegamos ao C2 sem saber se dormimos uma ou duas noites. Estávamos à espera de mais informação meteorológica. Quando saímos o mais provável seria dormir duas noites no C2.  

Dia 14, chegou um up date que confirmava uma baixa no vento para a noite de 15 para 16. Esta informação determinou que saísse-mos ainda nesse dia para o C3. Normalmente deveríamos sair pelas 04:00 para evitar o calor na face do Lhotse , mas neste caso não foi possível. Sai dia 14 pelas 11:00 para o C3. Foram seis horas de subida dos 6400m para os 7200m. Senti-me muito bem durante a subida. 

A expectativa era grande e a incógnita sobre o vento também. Os sherpas não dormem no C3. Vão directos do C2 para o C4.  Deste modo na manhã do dia 15, eu e o Prem, um Nepalês amigo do Nima, ficamos prontos e à espera dos sherpas que chegaram ás sete da manhã. Aqui, sair muito cedo é duro por causa do frio. Foi esse mesmo o trajecto em que tive mais frio, designadamente na mão direita que é a que trabalha com o jumar, um instrumento que ajuda a subir nas cordas fixas. Só desliza para cima e prende para baixo. O caminho do C3 para o C4, era bastante duro. Começa com a parte final da face do Lhotse e depois tem uma longa travessia para a banda amarela. 

Nesta travessia tive um contacto pouco agradável, e que me advertiu para o local em que estava.  Um grupo de sherpas, tentava descer o corpo de um alpinista russo que tinha morrido no dia anterior.  Não sei exactamente quais as causas porque circularam varias versões. Também não é importante. Sentidos bem alerta para reduzir ao máximo os perigos.  Foi também entre o C3 e o C4 que usei oxigénio artificial pela primeira vez. Apesar de ser muito reduzido, é uma grande ajuda. 

Aqui os tempos da Força Aérea foram recordados com alegria. A máscara que incomoda tanta gente, a mim não me incomodou nada. Nem me lembrava que a estava a usar. Foram oito horas para subir ate aos 8000m,  onde se monta o C4. Estamos a entrar na zona da morte, onde não há aclimatação possível. O corpo esta sempre a perder. A ideia é reduzir ao máximo o tempo de exposição a cima dos 8000m. 

O C4 é uma zona muito inóspita mas onde se tem a primeira visão da pirâmide do Evereste, e ao contrario do que eu esperava, não parece nada estar mais preto, bem pelo contrario. Interrogo-me se será possível, fazer todo o percurso nessa noite para o cume. No C4 a vida passa-se em câmara lenta. Todos respiram O2 artificial, e manobras simples como sair da tenda para uma ida à casinha, são tarefas hercúleas. Nem sempre se esta de oxigénio, e quando não estamos a diferença é impressionante. A previsão era sair nessa noite, pelas 21:00. 

Até lá é descansar o mais possível e beber muito para hidratar. Estamos a 8000m e a atmosfera é sequíssima. O vento não parava de soprar e eu interrogava-me se íamos sair. Com o meu anemómetro que a Isabel me ofereceu, pus a mão de fora e registei rajadas de vento de 5o Kts ( aproximadamente 90Km/hora. O vento não acalmou e nenhuma expedição saiu nessa noite.  Grande contratempo. 

O oxigénio não estava previsto para dois dias a 8000m e fomos ( fui) obrigado a comprar a outra expedição, mais três garrafas, não era só eu que precisava, mas era só eu que pagava. Como será fácil de imaginar, a 8000m é tudo muito inflacionado, mas o que mais me preocupava era o desgaste pela exposição prolongada aquela altitude. O vento não acalmava, e dentro da tenda eu por vezes pensava se a estrutura ia aguentar. 

O barulho era ensurdecedor durante as rajadas mais fortes. E assim continuou no dia 16.  Eu já só pensava que se o vento não permitisse sair nessa noite, tínhamos que descer e tentar a janela prevista para 22, ou seja a noite de hoje, o dia em que escrevo já em Lukla. Ia ser muito duro voltar ao C2 esperar dois dias e recomeçar tudo de novo. 

Pelas 20:30 da noite de 16 para 17, estava pronto para a eventualidade de o vento acalmar. Tão depressa como aparece, desapareceu. Até é estranho no silêncio.  Começamos a andar ás 20:45. Muita gente nas cordas fixas. Todas as expedições à espera de uma aberta. Andamos devagar, o que reconheço que até não é mau. Por vezes temos que parar, e isso já não é bom porque nos arrefece. Estamos acima dos 8000m, e de noite faz muito frio. Subimos sem grande historia até ao Balcony. É de noite e só vimos o caminho à nossa frente. Um pé à frente do outro. Por vezes é necessário ultrapassar um alpinista que perdeu as forcas, ou está demasiado lento. A mudança de ritmo a que essa tarefa nos obriga é impressionante.

São ultrapassagens em câmara lenta. É um lento a passar um lentíssimo. A pouco e pouco começa a clarear e posso finalmente começar a usufruir das paisagens que fui vendo nos livros e nos filmes.  Começo a sentir-me mais perto do cume e as dúvidas sobre o vento, qualquer problema físico, etc, dissipam-se e começo a sentir que o cume é uma questão de tempo. Ao ver o south summit a aproximar-se sinto a força a crescer.  É uma fase da subida muito bonita.  Infelizmente a concentração necessária e o frio não permitem nessa fase tirar muitos retratos. First things first, e tenho e que me concentrar na subida. 

Aproximo-me do Hillary step, que dá acesso à arwesta do cume.  Ai não tenho duvidas. É meu. É só uma questão de tempo.  

Ás 07:45 chego ao cume do Evereste. 

É uma grande emoção.  

Penso em tudo o que foi necessário para cá chegar. Nos meus apoios e na minha família, e tudo aquilo a que os sujeitei. Já lá estavam uns vinte alpinistas, apesar de eu ter feito cume relativamente cedo. Não estive muito tempo, porque previa-se que o vento aumentasse. Tive uma visão límpida no cume, o que piorou significativamente pouco tempo depois, segundo os relatos e os retratos de outros alpinistas. Feitas as fotos e trocados os parabéns com membros de outras expedições está na hora da descida, que isto ainda não acabou.  03:47 a descer. 

A descida não foi tão complicada com eu estava à espera. Sentia-me forte. O sol já aparecia e a temperatura subia um bocadinho. Já não usava aquelas luvas sem dedos e aproveitei para tirar algumas fotos.  Já no C4, toca a entrar para as tendas e de fato de penas para dentro do saco acama. Ainda de máscara para respirar, não dormi nada pela excitação e cansaço. 

Do C4 para baixo sofri mais.

No dia 18 sai as 08:00 para o C2. Até ao C3 desci sem problemas. Do C3 para o C2, levei uma grande tareia. Se fosse uma maratona, diria que foi quando bati no murro. Os maratonista sabem do que falo.  No C2 pensei que a 6400m ia ter uma boa noite de sono. Puro engano. Apesar de confortável, e já a respirar mistura rica, a excitação e perspectiva de regresso não me deixaram, literalmente pregar olho.  

Mas isto ainda não acabou.  Falta a última travessia do icefall, que aconteceu a 19. Mais uma tareia, muito provocada pela falta de sono. Chegados a 19 ao Campo Base, todos se preparam para dormir duas ou  três noites. Eu já não aguentava mais não me aproximar de casa.  Nessa mesma tarde, embalei o meu equipamento e fiquei pronto para iniciar o regresso a vinte.  

Ainda fiz um bacalhau à Gomes de Sá com o resto que tinha guardado para esta ocasião, e que tive o prazer de partilhar com os elementos da expedição vizinha e com quem me dei muito bem.  Não esquecer que eu  estava sozinho.  Do Campo Base para Lukla são normalmente duas noites, mas eu queria era dormir em Namche, no Hotel em que tinha estado com a família, e com os amigos da expedição organizada pelo Filipe Palma, e que não é demais dizer foram uma grande companhia. Pedro Vilas Boas, Margarida, Gonçalo, Paulo, Manel, Maria, Frederico e obviamente o Filipe. 

Em Namche, dormi pela primeira vez em semanas fora de um saco cama. Demorei 11:00 para fazer aqueles 40Km. As subidas foram feitas muito devagarinho.  Hoje percorri o caminho que me faltava até Lukla. 20 Km sem história, a não ser esta que agora termino. São 21:00 e tenho fome e sobretudo sede. Acabou-se o chá e o tang, que bebi em quantidades industriais nas últimas semanas. 

Vou repor o nível da cevada. 

Um agradecimento especial à equipa da Groupama que acreditou em mim desde o tempo das montanhas que não vendiam.  Ao ATL da Galiza, Escolinha de Rugby, por tudo.  Basta ler as mensagens. Um beijo especial à madrinha Ana Bola pelo apoio e incentivo. Rodrigo Leão, João Gil, Rui Veloso, obrigado pelo apoio. João Bento que me pôs em contacto com o ATL Câmara Municipal de Cascais pelo apoio institucional.  Ao Vasco e Cláudia pela ajuda no site.  À Ana Lima pela comunicação.

Isabel, Manel, Pico e Tartaruga, este Evereste era impossível sem o vosso amor. 

A todos os que têm acompanhado esta aventura e tanta força me deram com as vossas mensagens o meu sincero agradecimento.  

Não deixem de cumprir aqueles sonhos de juventude.  Mantenham-se em contacto, que brevemente apresentarei um filme sobre a escalada. 

Estão todos convidados 

 

 

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